segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A ALQUIMIA DA LUZ


Fui com a minha filha ao cinema este fim de semana ver “A Invenção de Hugo”, o mais recente trabalho de Martin Scorsese, e confesso que fique deslumbrado. O filme é absolutamente encantador, fortemente marcado pela inocência aventurosa de uma infância transbordante de magia e de beleza.

Para além da deliciosa fantasia do argumento, trata-se também, seguramente, de uma homenagem pessoal do realizador a Georges Méliès - um pioneiro do cinema aqui interpretado por Ben Kingsley -  e, através dele, um notável testemunho da profissão de fé do Scorsese-cineasta, na sua qualidade de criador posicionado numa trajectória que é, afinal, a da própria história do cinema e de todos os fabricantes de sonhos que lhe dão corpo.

De Méliès, disse Charles Chaplin ser “um alquimista da luz”. De facto, fica em evidência neste filme aquele que, em minha opinião, é um dos aspectos mais fascinantes da história do cinema – o das suas raízes mágicas, atestadas pela análise do desenvolvimento dos dispositivos ópticos e pelos contextos sociais da sua difusão. Se a camara obscura (conhecida desde a antiguidade) pretendia produzir formas de aproximação à realidade, a lanterna mágica, ao contrário, abria de par em par os portais do maravilhoso, tendo-se registado a recorrente conexão com o oculto, a fantasmagoria, e os efeitos emocionais intensos provocados pela projecção de imagens de esqueletos, fantasmas e todo um vasto repertório de temas sobrenaturais em que se baseavam os conteúdos da maior parte destes dispositivos. E é todo o fascínio de uma arqueologia do visualismo, das técnicas e tecnologias da visão que não param de se desenvolver desde que os polidores de lentes do século XVII nos possibilitaram o acesso ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno…; é, também, a verdade da constatação de Todorov e de outros autores que se dedicaram ao género fantástico, de que os “temas do olhar” se encontram no âmago da ruptura de fronteiras entre a esfera do visível e o sobrenatural, entre o físico e o psíquico. Dispenso-me de mais considerações em torno das raízes históricas das fraudes mediúnicas baseadas em efeitos especiais (ectoplasma), jogos de luz e sombra, ou do percurso que nos conduz da Viena das sessões de Franz Anton Mesmer e demais Cagliostros, até à análise da cegueira histérica e à moderna psicologia das profundezas…

O pequeno Hugo Cabret, vivendo escondido dentro das paredes e dos gigantescos relógios de uma estação de caminhos-de-ferro, era órfão de pai, tendo-lhe este legado um autómato e o gosto pelos relógios. Abertas as vias da memória, das lentes e dos espelhos do imaginário, resta-me assinalar que se completam hoje oito anos sobre a morte do meu pai, que para além de especialista em anagramas, era um cinéfilo de primeira linha. Tenho a certeza de que ele haveria de vibrar de entusiasmo com este filme...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A NÃO PERDER!...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ALEGRIA DA CRIAÇÃO


A obra do Zeca está aí, como matéria-prima para que possamos continuar a reinventar o futuro, seja com palavras belas - como as desta "Alegria da Criação" que ele, já sem forças, pediu ao Janita para cantar - seja com o escárnio e maldizer com que sempre os homens livres haverão de amaldiçoar a classe dominante; com a mansidão das baladas, águas das fontes e dos rios que vão... ou com a exuberância rítmica que só ele conseguia, mas cujo caminho mostrou - virtude, talvez, da intersecção criativa da sua experiência africana com os nossos adufes, bombos e ocarinas...

Ao vivo, relembro um concerto de solidariedade com os presos do PRB-BR, ali no quartel dos bombeiros da R. Camilo Castelo Branco, ao Marquês de Pombal; e, sobretudo, o fantástico concerto da Aula Magna (na primeira parte do desconhecido Elliot Smith), com o Guilherme Inês, o Júlio Pereira, o Sérgio Mestre... - acabados de chegar da Alemanha, de uma tournée cheia de sucesso - a sala cheia e o público ao rubro... Foi o melhor e mais empolgante concerto a que alguma vez assisti!

ALEGRIA DA CRIAÇÃO
Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado

A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía

Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga

Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
tens mais de um milhão de anos
Rapariga

Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga

Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
tormentosa

Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha

INOVAÇÃO

Contra os tristes defensores daqueles significantes vazios que, inchados pelos negócios, continuam a alimentar o mito do "crescimento" baseado na dependência dos combustíveis fósseis; contra os que suportam a doutrina da escassez organizada e que, cegos ao pós-pico petrolífero, são responsáveis pelos mais insidiosos mecanismos de produção de pobreza, acelerando a destruição dos recursos naturais...

E, claro, contra os responsáveis pelos tristes, insanos e mortíferos crimes do proibicionismo, dos que fazem das liberdades dos cidadãos a matéria prima do estado correccional, farmacológico, prisional...; contra a ortopedia das ideias e o pensamento único...

...Eis um projecto para salvar a economia europeia, para criar postos de trabalho e repovoar o interior e o sul desertificados deste Portugal tão deprimido: o cânhamo - a planta que fez o cordame e as velas das naus de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Colombo; que sem esgotar os solos pode fazer tecido mais forte que o linho, papel mais duradouro que o eucalipto, óleo alimentar rico em vitaminas e sais minerais, materias de construção, biocombustível, medicamentos de efeito comprovado em inúmeras doenças, como o glaucoma, a esclerose múltipla, o Alzheimer ou a dor crónica, e como anti-emético eficaz para quem sofre de cancro e tem de suportar tratamentos de radioterapia, para receitas culinárias ou para o uso espiritual, religioso ou recreativo, etc., etc., etc...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O PONTO CEGO


No espectro político disponível, sempre me posicionei à esquerda e sempre votei em conformidade com um ideal de justiça social e de liberdade que é, indubitavelmente, património da esquerda - herança das correntes de pensamento emergentes dos princípios consagrados com a entrada em cena do 'terceiro estado' em 1789: rejeição do direito divino dos monarcas, rejeição da sagrada união entre o trono e o altar, afirmação dos ideais da liberdade, da igualdade, da fraternidade. Mas entendo também a 'esquerda' de acordo com princípios que validam a constatação simples da sua pluralidade e que, por isso mesmo, a reforçam. No espaço próprio das idiossincrasias, a 'minha' esquerda significa, assim, a rejeição radical do leninismo e do produtivismo. E porque a violência é como um cancro que mina as relações humanas, levo bastante a sério a exigência de denunciar os mitos do progresso e o vasto rol de crimes perpetrados pelos seus apóstolos. Poderia referir-me à vertente luciferina e prometeica da questão, explorando o sentido do mito de Caim, o inventor da metalurgia, que mata o seu irmão, simples agricultor, ou à dimensão fáustica, insensata e irracional do desastre ecológico permanente em que nos afundamos. Mas para clarificar este ponto, não encontraria melhor e mais actual exemplo do que o sórdido conúbio de engenheiros e empresários que, da esquerda e da direita, se uniram em torno da insana vontade de instalar duas centrais nucleares em Portugal - "chave na mão", como gosta de repetir Patrick Monteiro de Barros, o empresário radioactivo - uma em Sines, outra no Pego. Parece que, à esquerda, há quem pense nos custos de produção dos bens transacionáveis e dos serviços para as tão cantadas pequenas e médias empresas que, dizem eles, só subsistirão se beneficiarem de "energia barata", bla-bla bla-bla - em suma: conversa de economistas, para legitimar religiosamente a opção pela morte e os lucros dos investidores. A ganância surge aqui travestida, como sempre, de "interesse nacional", pois esta gente dá ares de se preocupar muito com o estado da economia do país (vê-se logo!)... Aqueles que, apoiando o nuclear, se representam a si próprios à 'esquerda', como Demétrio Alves do PCP ou Henrique Neto e João Soares do PS (este é um cristão-novo do nuclear, como ele próprio explicou há tempos ao inefável Mário Crespo), formam, com essa opção, o que eu designaria por 'esquerda mete-nojo'. Tão repugnante como a direita mais boçal - a da caça, das touradas e das santinhas; tão desprezível como a direita mais agressivamente convicta de que é amiga dos pobrezinhos...

Mas muitos outros pontos me afastam da esquerda, tanto da ortodoxa como da outra. Em primeiro lugar, e tendo presente que, tal como dizia o Zeca, eu sou o comité central de mim próprio, não me assiste nenhum dever de obediência e de enfeudamento a nenhuma disciplina que não a da minha consciência - nem partidária, nem sindical nem corporativa. Chateia-me, portanto, a incapacidade de uma certa esquerda em condenar abertamente o regime execrável da Coreia do Norte ou o capitalismo chinês e mais umas tantas quantas coisas de somenos que não vêm agora a propósito. Esclareço, também, que não considero o PS um partido de esquerda. Tem, é certo, uma tradição de esquerda, mas não mais que isso. Para evidenciar a natureza do meu distanciamento, tomaria como esclarecedores os exemplos de Zita Seabra, Vital Moreira, Veiga Simão ou Basílio Horta - que demonstram cabalmente um tipo curioso de entropia nas trajectórias dos agentes posicionados em lugares de poder no sistema político-partidário, tanto nos que abandonam a esquerda, como nos que a ela se acolhem, independentemente dos interesses próprios do dinheirismo (neste caso seria indubitavelmente melhor o exemplo de Pina Moura…) e, quiçá, da ambição, vaidade ou, simplesmente, uma mudança na condição ontológica e na experiência mimética do zoon politikon... Não é nenhuma censura pessoal a estes indivíduos em concreto, apenas uma evidência da degradação dos valores e da corrosão das narrativas do poder e da sua opacidade semântica. É certo que todos fizemos trajectos de mudança nas nossas vidas e não há nada de errado nisso, a não ser quando a opção resultante é sintoma de um esvaziamento como, por exemplo, aquele que atinge as raias da repugnância moral - como quando Zita Seabra diz a Mário Crespo que os sindicalistas não querem trabalhar... Ora o meu distanciamento visa, justamente, aquilo que não muda no Vital Moreira que dissertava acerca do "estado fiscal de classe" e o Vital Moreira que apoiou José Sócrates e que fica bem ao lado de Ricardo Rodrigues, Vitalino Canas ou Vera Jardim; o que não muda no Veiga Simão de Marcelo Caetano para o Veiga Simão de António Guterres; o que não muda no Basílio Horta do CDS e no Basílio Horta que é agora o número dois da bancada parlamentar do Partido Socialista. E o que não muda é o facto de serem sempre, todos eles, devotos da mesma crença redentora no crescimento económico, no dogma da imaculada escassez ou, para usar a expressão de Jean Ziegler, da "doutrina da escassez organizada".

Ao contrário destes apóstolos do deus-mercado, há uma esquerda que luta pela justiça social e pela limitação dos efeitos devastadores do funcionamento dos ditos mercados - esquerda com a qual me identifico e invariavelmente apoio nas urnas. Mas, para além do exercício da democracia formal, não tenho ilusões. Os anos levaram-me a admirar igualmente outras trajectórias substantivamente diferentes daquelas que apontei e das quais não prescindo no meu panteão de figuras inspiradoras e que muito respeito, seja Adriano Moreira, Helena Roseta ou Gonçalo Ribeiro Telles. A 'minha esquerda' é também aquela que, há 13 anos, acolheu José Mattoso e que, ontem como hoje, não tem preconceito em apoiar incondicionalmente a legalização do cânhamo, mas não será nunca, jamais, aquela que é incapaz de um elogio a Gonçalo Ribeiro Telles e que com uma confrangedora displicência o rotula de "ecologista de direita"... O ponto da questão, aqui, é inquietantemente outro: a incapacidade desta 'minha' esquerda para questionar as falácias da própria economia enquanto doutrina soteriológica hegemónica e a concomitante recusa em abandonar a perniciosa fantasia do "crescimento". Por isso mesmo, não é de estranhar que, pelo menos num ponto, se verifique uma estranha convergência teórica entre os economistas da esquerda e da direita – um ponto-cego no qual só à custa de muita opacidade podem ambos os lados da barricada proclamar essa certeza tão tristemente etnocêntrica de que «sem crescimento económico não há Estado Social sustentável»
e, até, que «sem crescimento económico não há sociedades viáveis».

Resta-me ainda, apesar de tudo, uma vaga esperança de que esta esquerda possa vir a considerar mais seriamente todas as vertentes do trabalho de Karl Polanyi - incluindo a que se refere ao etnocentrismo implícito na nossa obsoleta mentalidade mercantil - e pondere as propostas de Boaventura Sousa Santos a que já antes me referi aqui no MMM – descolonizar, democratizar, desmercadorizar – de preferência, sem o habitual desprezo que sempre exibem no uso da palavra ‘utopia’, da qual se demarcam como se esta não tivesse a sua origem na Grécia....

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

BOM FIM-DE-SEMANA!




God grant me the serenity to accept the things I can not change
Courage to change the things I can
And the wisdom to know the difference

I am not like I was before
I thought that nothing would change me
I was not listening anymore
still you continued to affect me

I was not thinking anymore
althought I said I still was
I'd said "I don't want anymore"
because of bad experience

but now I feel so different
I feel so different
I feel so different

I have not seen freedom before
and I did not expect to
don't let me forget now I'm here
help me to help you to behold you

I started off with many friends
and we spent a long time talking
thought they meant every word they said
but like everyone else they were stalling

and now they seem so different
they seem so different
they seem so different

I should have hatred for you
but I do not have any
and I have always loved you
oh you have taught me plenty

the whole time I'd never seen
all you had spread before me
the whole time I'd never seen
that all I'd need was inside me

now I feel so different
I feel so different
I feel so different.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

INSTANT KARMA



(DO FILME "O REI PESCADOR", de TERRY GILLIAM)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A CONTEMPLAÇÃO DO MISTÉRIO

“Wisdom requires not only the investigation of many things, but contemplation of the mystery.”
(Jeremy Narby - The Cosmic Serpent: DNA and the Origins of Knowledge)


UM ANO...


(ANDREI TARKOVSKI - NOSTALGHIA, 1983)

Foi exactamente há um ano...
Hoje, ocorre-me apenas uma palavra e a mesma imagem que então lhe associei: helplessness, como em 'Frantic' de R. Polanski, quando Michelle (Emanuelle Seigner) é baleada pelas costas num cais junto ao Sena e, ainda assim, continua a caminhar, vacilante, já sem um sapato, até desfalecer e se esvair. RICHARD THOMPSON - I'LL BE TAKING MY BUSINESS ELSEWHERE

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

CONTRA A DESUMANIDADE DO CAPITALISMO, CONTRA O CULTO DO DINHEIRO, PELA GRATUIDADE DA VIDA

Hans Brasen (1849-1930) - por via do esplêndido blog OLD PAINT, entretanto censurado pelas razões mais estúpidas que se possam imaginar: confundir o nu na arte com pornografia. Por isso, o OLD PAINT migrou para AQUI

É com grande desgosto que tenho vindo a constatar que a esmagadora maioria dos estudantes de ciências sociais não lê em francês, por terem tido currículos que reflectem já a formatação hegemónica da língua inglesa como língua-franca do comércio global. Por isso, as bibliografias de estudo assentam agora, sobretudo, em autores ingleses e americanos ou, genericamente, de expressão anglo-saxónica. Hoje, porém, é cada vez mais urgente que as novas gerações redescubram a originalidade do pensamento francês contemporâneo. Aqui deixo alguns exemplos, com dedicatória especial a todos os que têm a ousadia e a bondade de ir deixando uns comentários.

DANY-ROBERT DUFOUR



PAUL ARIÈS



SERGE LATOUCHE