Fui com a minha filha ao cinema este fim de semana ver “A Invenção de Hugo”, o mais recente trabalho de Martin Scorsese, e confesso que fique deslumbrado. O filme é absolutamente encantador, fortemente marcado pela inocência aventurosa de uma infância transbordante de magia e de beleza.
Para além da deliciosa fantasia do argumento, trata-se também, seguramente, de uma homenagem pessoal do realizador a Georges Méliès - um pioneiro do cinema aqui interpretado por Ben Kingsley - e, através dele, um notável testemunho da profissão de fé do Scorsese-cineasta, na sua qualidade de criador posicionado numa trajectória que é, afinal, a da própria história do cinema e de todos os fabricantes de sonhos que lhe dão corpo.
De Méliès, disse Charles Chaplin ser “um alquimista da luz”. De facto, fica em evidência neste filme aquele que, em minha opinião, é um dos aspectos mais fascinantes da história do cinema – o das suas raízes mágicas, atestadas pela análise do desenvolvimento dos dispositivos ópticos e pelos contextos sociais da sua difusão. Se a camara obscura (conhecida desde a antiguidade) pretendia produzir formas de aproximação à realidade, a lanterna mágica, ao contrário, abria de par em par os portais do maravilhoso, tendo-se registado a recorrente conexão com o oculto, a fantasmagoria, e os efeitos emocionais intensos provocados pela projecção de imagens de esqueletos, fantasmas e todo um vasto repertório de temas sobrenaturais em que se baseavam os conteúdos da maior parte destes dispositivos. E é todo o fascínio de uma arqueologia do visualismo, das técnicas e tecnologias da visão que não param de se desenvolver desde que os polidores de lentes do século XVII nos possibilitaram o acesso ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno…; é, também, a verdade da constatação de Todorov e de outros autores que se dedicaram ao género fantástico, de que os “temas do olhar” se encontram no âmago da ruptura de fronteiras entre a esfera do visível e o sobrenatural, entre o físico e o psíquico. Dispenso-me de mais considerações em torno das raízes históricas das fraudes mediúnicas baseadas em efeitos especiais (ectoplasma), jogos de luz e sombra, ou do percurso que nos conduz da Viena das sessões de Franz Anton Mesmer e demais Cagliostros, até à análise da cegueira histérica e à moderna psicologia das profundezas…
O pequeno Hugo Cabret, vivendo escondido dentro das paredes e dos gigantescos relógios de uma estação de caminhos-de-ferro, era órfão de pai, tendo-lhe este legado um autómato e o gosto pelos relógios. Abertas as vias da memória, das lentes e dos espelhos do imaginário, resta-me assinalar que se completam hoje oito anos sobre a morte do meu pai, que para além de especialista em anagramas, era um cinéfilo de primeira linha. Tenho a certeza de que ele haveria de vibrar de entusiasmo com este filme...


Concordo. Também fomos ver (a quatro), para celebrar um aniversário, e eu gostei imenso, por tudo o que dizes. Dos quatro, houve quem deplorasse uma certa falta de acção mas... nem tudo tem que ter o mesmo ritmo, não é? Eu encantei-me.
ResponderExcluirFalta de acção??? Essa até dá vontade de rir...
ResponderExcluirBeijos Margaridaa
eu fiquei um pouco desapontada. A ideia está bem apresentada, e é pedagógico. É um filme juvenil para as familias, ok, mas não me deslumbrou.
ResponderExcluirxinha
Desapontada?!... ah....
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